Sentir insônia poética é tentar dormir e acordar nas rimas. É no silêncio da madrugada que os barulhos no pensamento acordam os poemas.

sábado, 1 de outubro de 2011

Além do que se possa explicar

Somos um entre três milhões de espécies catalogadas que vivem no pequeno planeta Terra, que gira em torno da estrela anã chamada Sol, uma das 100 bilhões de estrelas que compõem a Via Láctea – uma galáxia entre 200 bilhões de galáxias que existem neste universo não singular e que está para desaparecer. Será sobre as crenças do catastrófico 2012 a que eu me refiro? Não, não é para falar sobre o final do mundo e sim para refletir o que cada um de nós está fazendo para contribuir com o caos. Assim como as estrelas perdem seu brilho e perecem a todo momento, não me espanta pensar que algum dia o “nosso” planetinha deixe de existir e com ele cada um de nós. É prepotência demais achar que nossa ínfima existência será considerada. É um mistério toda essa vida.
Mudando para uma lente de maior aumento e focalizando somente a terra... Como estamos lidando com esse mistério? A cada dia encontramos pessoas tristes, desamparadas, orgulhosas, egoístas, arrogantes. Qual a explicação para atitudes grosseiras, discórdia sem fundamento, mau humor? Deus - se é que nos criastes como exceção dentre inúmeros universos - explique a razão de tanto desamor. Porque conhecendo pessoas altruístas, de bom coração e felizes, é incompreensível que nem todos vivam dessa maneira. Aliás, incompreensíveis também são as estrelas que mesmo depois que morrem brilham para nós. Será mesmo para nós? Deve ser apenas o destino delas, ou são reações químicas e físicas aliadas à distância em anos-luz que propiciam esse fenômeno.
Tudo deve ter uma explicação, mas somos pouco demais para descobrir, ou mesmo estamos nos preocupando apenas com coisas fúteis e esquecendo o verdadeiro significado de  viver entre 200 bilhões de galáxias. Pior, deixamos de evoluir como pessoas para desenvolver as questões financeiras e de consumo. O que torna tudo mais incompreensível, menos real apesar de palpável. Que nosso destino seja reacender a vida nas estrelas que estão prestes a apagar, direcionar nossas atitudes visando à benevolência, à abnegação e sobretudo à felicidade. E mais importante, nunca esquecer que somos um...


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sintaxe à Vontade

Em co-autoria com o gauche, Pedro Alvim

Parágrafo único onipotente, onipresente e impassível de alteração: Tenho sérios problemas em escrever qualquer frase que seja coerente, semântica e literalmente com a Língua Portuguesa. Considerada demasiado viajante para regras tão estáticas e imóveis e demasiado mutante para escrever textos imutáveis.Sou complexamente simples, e simplesmente complexa.Paradoxal e visceral.Minha mente é tão intrincada quanto o maior dos mistérios, e tão simples quanto a menor das palavras, sem alternativas para o impasse do tempo que exige estática, que exige definição.Porque o tempo não se define, não começa nem termina.Ele passa, e passando transforma... recaindo em si mesmo ou em nada.Em um nada, mas que diz tudo.



Sintaxe a vontade O Teatro Mágico
Sem horas e sem dores,
Respeitável público pagão,
Bem-vindos ao teatro magico.

A partir de sempre
Toda cura pertence a nós.
Toda resposta e dúvida.
Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser,
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto.
Nenhum predicado será prejudicado,
Nem tampouco a frase, nem a crase, nem a vírgula e ponto final!
Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas,
E estar entre vírgulas pode ser aposto,
E eu aposto o oposto: que vou cativar a todos
Sendo apenas um sujeito simples.
Um sujeito e sua oração,
Sua pressa, e sua verdade, sua fé,
Que a regência da paz sirva a todos nós.
Cegos ou não,
Que enxerguemos o fato
De termos acessórios para nossa oração.
Separados ou adjuntos, nominais ou não,
Façamos parte do contexto da crônica
E de todas as capas de edição especial.
Sejamos também o anúncio da contra-capa,
Pois ser a capa e ser contra a capa
É a beleza da contradição.
É negar a si mesmo.
E negar a si mesmo é muitas vezes
Encontrar-se com Deus.
Com o teu Deus.

Sem horas e sem dores,
Que nesse momento que cada um se encontra aqui e agora,
Um possa se encontrar no outro,
E o outro no um...
Até por que, tem horas que a gente se pergunta:
Por que é que não se junta
Tudo numa coisa só?




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Perspectiva

Vida. O que carrega, pois, esta palavra, tão indefinível e tão distante, mas ao mesmo tempo, tão próxima, tão real, tão VIVA? O que é viver? Reunir uma inconstância de sentimentos, momentos e divagações que pouco fazem sentido?

É engraçado que só venhamos a pensar na importância da vida, geralmente, quando ela nos “prega uma peça”. Sinto-me, agora, como se ela fosse aquela figura de capuz preto carregando um machado, prontinha, prontinha para tirar, lentamente, a minha vontade dela mesma. E morte e vida se confundem, a partir do momento em que meu corpo e, sobretudo, coração, já não mais reconhece o que os difere. É como se apenas existisse, nesse momento, vida na morte e morte na vida.

Pode parecer dramático demais, meio baynorismo demais para o séc XXI, mas não se pararmos pra pensar que tudo o que se passa nesse mundo, o qual - ignoro até que ponto - chamamos de real, só existe em oposição a algo. O que seria da tristeza, sem a alegria? Do ódio, sem o amor? Da fome, sem a fartura? Da surpresa, sem a frustração, por exemplo? Nada. Absolutamente, nada. E o oposto, também se faz verdadeiro. É tudo questão de perspectiva e nada além disso.

O conceito de perspectiva é originário, como se sabe, da pintura, a qual pressupõe a exposição do ângulo de visão do artista. Ela torna-se, assim, a arte de representar objetos sobre determinado plano, tais como eles apresentam-se à vista. Já na literatura, ela assume um papel ainda maior, deixando de ser apenas o lugar de onde se vê, para representar, também, a maneira como se vê. Partindo deste conceito, é através dela que interpretamos qualquer existência, da mesma forma como um narrador interpreta sua história antes de conta-la. Nós interpretamos a vida, antes mesmo de conhecê-la, antes de sabermos defini-la.

Assim, a verdade torna-se amplamente relativa, tal como a vida e a forma de encará-la. Se encararmos, como foi dito acima, que sentimentos só existem em contraposição a outro, talvez paremos de enxergar a tristeza, o ódio, a raiva, a angústia e, até mesmo, a morte, como coisas ruins. São apenas estados de espírito, passageiros, mas que são capazes de nos fazer, de fato, dar valor aquilo que realmente nos faz bem, como viver.

“É preciso afastar-se para uma quietude qualquer, e talvez os mortos sejam esses que se retiram para refletir sobre a vida”, (Rilke, Rainer Maria. A canção da justiça)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

À Clarice

Prefiro a palavra solta, não aprisiono meu mundo.
Exalto a entrelinha, é sempre o endereço incerto para encontrar o eu-mutante.

Sem talento


Despi-me de ações
Fico nua de ideias
Desfaço-me de antigas palavras

É um poema que surge?
É o tempo que urge?
Eu clamo por existência
Clamo por suor, sinapse e sangue

Sinto por viver
E vivo porque sinto
Nesse infinito de vida
fico com o finito momento
Se se trata de morrer
prefiro ficar sem esse talento

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Morte aos vermes!

É estranho como procurei na escrita me refinar a ponto de me perder em mim, mas já havia me embrenhado tanto que acabei me perdendo do mundo. Alimentei meus medos, refinei minhas paixões, penetrei em cada lágrima e sem respirar fui a terra e promovi mazelas., vísceras e sangue. Virei verme, parasita de mim. Me comi por dentro, defequei em mim e achei que, ao degustar e regurgitar o vômito, aprendia mais sobre tudo. Sobre esperança, sobre morte, sobre Deus, sobre amor.
Esqueci que para aprender é necessária abertura, é necessária entrega, é necessário o risco e o incerto. É necessário sim, ser. Mas ser com o outro. Nada de tênias solitárias e seus proglotes egoístas, Sou um raro exemplar do animal político de Aristóteles. E como tal, interajo com o meio e a sociedade. Saí do escuro dos orifícios e voltei a tona pela pele, pelo toque, pelos lábios, pela batida externa de um coração. Reaprendi as coisas simples: o azul do céu, o verde da grama, o sorriso, o abraço cúmplice, o feijão, a fruta, a melodia, o ritmo. Saí da arrogância de dizer-me mais madura pra ser exatamente mais criança. Porque é sentindo como criança que potencializamos a dúvida. E como dúvida, somos inquietantes, incontroláveis e indomáveis.Nenhum antibiótico no mundo acabaria com a minha alegria de conhecer e deixar-se conhecer.
Mais humana menos parasita, proclamo: Morte aos vermes! Morte a arrogânica, morte a prolexidade, morte as lombrigas da solidão doentia. Do amor homeopático e compulsório!
Viva a proletária simplicidade!
Simplicidade de alcançar as palavras apenas as sentindo...










terça-feira, 10 de maio de 2011

E isso é tudo

Inquietação. Talvez seja essa a palavra que melhor expresse o que eu gostaria de poder explicar. É muito difícil colocar no papel e entender que o que escrevi reflete o que sou, o que sinto e acredito. Muitas vezes tento esconder meus princípios e crenças, não por vergonha, mas por insegurança e falta de confiança. No entanto, há algum tempo, percebi que na tentativa de esconder, acabo por revelar inconscientemente meu caráter. Comecei a “descobrir” que não posso me separar da minha personalidade independentemente dos que me cercam, mas há situações em que ela se sente mais à vontade para lembrar que pertence a mim.
Cabe aqui uma metáfora, retirada do livro “Tristes Trópicos”, proferida por uma senhora que se comparava a um peixe podre envolto por um bloco de gelo – “intacta na aparência, mas ameaçada de se desagregar mal o invólucro protetor derretesse”.
 É possivelmente essa inconsistência a causa da minha inquietação. Eu não fico satisfeita em saber um pouco, não para ser melhor, mas porque sei que não é suficiente, por pura curiosidade e por valorizar o conhecimento, sendo ele utilitarista ou não.  Isso me tira o sono...  Assim como ver os problemas e ser incapaz de resolvê-los. Assim como ter noção do certo e do errado e escolher o pior caminho. Assim como saber que há uma forma de mudar, mas muitos não o fazem porque já perderam a fé em si mesmos e pouco importa o resto. Se o peixe já apodreceu, de que vale o gelo? Se você não faz nada para ajudar, por que criticar? Se você não contribui de alguma forma, de que serve o conhecimento?

Você vai perceber leitor que a minha maior dificuldade está em transcender meu pensamento em algo legível. Meus amigos são bem melhores nisso... Vale ressaltar que essa diferença não tem relação com a complexidade da maneira de pensar de cada um, é apenas uma característica que preferi compartilhar e que também é inquietante. 
Então, não me surpreendo se você resolver pular a minha postagem. Eu vou tentar melhorar, buscar novas ideias e aprendizados, pensar de maneira menos paradoxal e mais determinada, mas acho que não posso ir contra quem sou. Nunca saberei todas as respostas, todas as formas de me expressar, todos os caminhos a percorrer ou todas as palavras a serem escritas.

Sou só eu e essa tal de inquietação. É tudo o que eu sei.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Enfim, minha breve apresentação

Como não desejo apenas repetir tudo que meus colegas já escreveram neste blog, deixo uma breve citação minha, que resume um pouco o que quero dizer:
“Não sou o que sou, sou o que fui e o que desejo ser. A cada instante a definição do eu se modifica.”

Não me considero qualificado o suficiente para escrever incríveis textos como meus colegas, mas fui convidado e sinto-me honrado para tanto. Meus pensamentos e sentimentos são melhores expressados por meio de poemas, que, por ter certo receio de que se tornem versos comuns, soltos, sem seu significado original ou seu autor, escolherei com cuidado para postar. Logo de primeiro encontro, o leitor notará que rimas são raras, se não ausentes, em meus poemas. Isso pode ser explicado através da história da Literatura, que prefiro não descrever por falta de conhecimento na área (deixo essa decisão aos outros colaboradores) ou posso explicar eu mesmo, futuramente.

“Pergunto à imensidão do universo
Por quê?
Por que os que se esforçam
Os que continuam lutando mesmo depois de não ter mais forças
Acabam caindo, derrubados
Enquanto eu, de espírito fraco
Procrastinador recalcitrante
Recebo a glória desmerecida?
Será uma questão mais complexa
Que meros olhos humanos não podem enxergar
Que a insignificante mente humana é incapaz de compreender?
Serão um dia recompensados?
Cairei um dia, enfim?
Ou são essas consequências
De um tempo passado
Esquecido por cada um de nós?”
(LordSatoh)

P.S.: Deixarei meu nome assim, pelo menos por enquanto

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Michê de mim

Tentada a falar
Tentada a escrever
Tentada talvez a amar
Tentada a ser mim

Sigo michê
Sigo clichê
Falo de amor
Como se vendesse meu corpo
A você
A mim

segunda-feira, 28 de março de 2011

Devaneio noturno

O ano de vestibular chegou. A escola, que para alguns era apenas lugar de encontrar os amigos, agora é ferramenta para o ingresso na universidade. Um pensamento comum e que todo ano se repete. Entretanto, depois de concluído o melhor ano na escola. O peso da saudade e, até mesmo, o arrependimento fazem parte dos novos universitários, que se angustiam em estudos, novas pessoas e esquecem que vivem.

O primeiro dia de aula na Universidade pode parecer com o primeiro dia da escola, todavia a maturidade e as responsabilidades são distintas. Quando crianças, a vida nada mais é que uma gincana, que dura o dia inteiro, e o descanso na parte da noite. Não se fica inseguro em não conhecer ninguém, como na adolescência. Na realidade, o interessante era conhecer novos participantes nos jogos, uma ingenuidade que de um dia para outro se esvai como num passe de mágica.

A partir desse dia, a vida começa a ter um viés diferenciado. As pessoas não são interessantes apenas para rir, mas para se aglomerar em uma rede de contatos, que, possivelmente, serão necessários no futuro. Não que isso seja ruim, entretanto a busca, unicamente, por interesses, acaba por dizimar a personalidade. Além de cercear as pessoas, com pensamentos incompletos e, muitas vezes, deturpados.

Nesse cerceamento, cada vez mais latente, a busca pelo excessivo correto, outra corrente de grupo antagônico ao supracitado também se manifesta. Infelizmente, o radicalismo desmedido cria laços emotivos, familiares e relacionais tão dependentes, quase sufocantes, dos participantes. Não existe o coletivo, sem o individual. Esta é a frase que deve servir de guia.

Basta conhecer pessoas no primeiro dia da universidade para sentir esta confusão de interesses. Assim, uns conversam, puramente, pelo networking, sem se importar com o espaço do outro – como outros, dizem morrer de amores e afinidades, também interferindo no espaço e na mente do interlocutor.

Leitor, ninguém disse que a vida seria fácil. Acredito na dificuldade. Tenho fé que ela faz o papel de medidor de tudo que queremos, desejamos, possuímos e desistimos. O ano do vestibular, não pode ser encarado com desdém, muito menos, excessivamente, dedicado. Da mesma forma que os anos da faculdade não podem ser guiados de forma imatura. O universo da universidade é o melhor ponto de reflexão de atitudes e ponto de convergência para não encontrar apenas respostas, mas cria-las. O certo e o errado são concomitantes, sinônimos e não necessariamente são as únicas vias. Não pense em ser o melhor, mas o melhor para você e com você.

Ah, preposições! As preposições fazem todo o diferencial na vida. Elas são as pontes e, assim, como na vida, devemos passar por ciclos sobre pontes. Metaforicamente, use suas pontes. Seja você! Não pense em si próprio a todo instante, nem no outro, insistentemente. Pense na sua parte dentro do todo. Pense no nós!


 E assim, a madrugada passa, os devaneios surgem e desaparecem, e a insônia dá lugar ao sono, satisfeito.





sábado, 26 de março de 2011

Organização caótica

Lírico, épico e dramático. Estes três gêneros foram apresentados a mim como os "Três fundamentais", o que significa, por vez, que estão sempre presentes, seja juntos ou separados, em qualquer obra literária. Não pude deixar de questionar tal afirmação. Em qual dos três encaixar-se-ia, pois, a escrita dadaísta? Ou os poemas surrealistas? E os cubistas?
Obviamente, não podemos enquadrá-los no gênero épico- é só compará-los a Homero; o leitor há de convir, também, que pouco possuem eles de dramaticidade- Shakeaspeare com certeza concordaria; outrossim, estão longe de representar o sentimentalismo do gênero lírico- semelhança alguma aos escritos de Fernando Pessoa. Poder-se-ia procurar uma segunda alternativa: e se fossem eles a união dos três? Definitivemente nada têm eles de comum com as baladas de Manuel Bandeira. O que seriam então?
Alguns radicalistas diriam que tais vertentes não podem ser chamadas de literatura, justamente por essa dificuldade aparente de classificá-las. Mas isto seria um tanto injusto com os vanguardistas Hugo Ball, ou Antonio Maria, ou Guillaume Apollinaire, por exemplo. Certamente, cada um destes se reviraria em seu túmulo ao ouvir tal barbárie. Afinal, é muito mais fácil excluir algo de um sistema do que tentar criar uma forma de englobá-lo nele.
Hoje, serei um pouco audaciosa e tentarei formular um espaço alternativo para estes escritos dentro da literatura. Se não podemos fugir dos "gêneros fundamentais", vamos tentar mudar a forma de encará-los. E se, ao invés de uma união harmônica entre os gêneros, o dadaísmo- aqui, apenas como representante dos demais já citados- fosse o choque do épico com o dramático, ou do lírico com o épico, ou dos três ao mesmo tempo? É como se, ao uni-los dessa maneira, fôssemos capazes de introduzí-los na literatura e organizá-los dentro do caos que representam. Eles seriam, pois, nada mais que a representação caótica do padrão de gêneros literários. E isso não significa que, apenas por serem diferentes e, muitas vezes, incompreendidos, devem ser julgados como arte baixa, como poderia classificar Aristóteles. São apenas a expressão real de sentimentos cansados do tradicionalismo, impositor de regras e normas que nem sempre são convenientes.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Metamorfose Pura

Realidade. Talvez seja essa a palavra que mais amedontra os poetas. Se para eles é na insônia que encontram inspiração, para mim, realista por natureza, é durante o despertar do dia que produções imperfeitas passam ao papel. Entre os desvaneios matinais, entram em conflito sonhos da noite anterior e fatos do dia que virá- na mente, um turbilhão de coisas sem sentido.
Crio coragem. Levanto. Exatamente no momento em que meus pés tocam o chão frio, sou atingida por um balde de realismo: meu lirismo permanece na cama. Entretanto, minhas palavras denunciam-me: sou incapaz de escrever longe da sombra do romantismo. Percebo, pois, que não sei ser só realista, como não sei ser apenas poeta.
Então, o que seria eu? Poderia ser um pouco de cada, meio a meio, talvez mais um do que o outro. Mas não! Sou inteiramente ambos. Com a mesma força, com a mesma intensidade, com o mesmo ardor. Jamais negarei o meu realismo. Jamais negarei meu caráter poético. Simplesmente, encarregarei o leitor de definir-me de acordo com o assunto de que trato, da maneira como trato.
Hoje, sou mais romântica que realista, ao contrário do que disse ao início deste rascunho. E se o leitor vê contradição neste fato, acostume-se com ela. Não hesitarei em mudar de opinião no decorrer de minhas postagens. Escreverei de acordo com aquilo que acredito no momento em que tomar o papel e caneta em mãos. Isto, todavia, não faz de minhas palavras mais verdadeiras, muito menos mentirosas. São apenas palavras, jogadas aqui para que aquele que lê julgue-as como desejar.
Por fim, retomo a ideia de meu colega, Anil agripnico: sou a metamorfose pura, em seu integral significado; um alguém diferente a cada composição. E para os incapazes de compreender-me, recomendo os demais colaboradores desta página- provavelmente, melhores que eu e mais compreensíveis.

"Agora, meus amigos, é preciso nos consolarmos com isto: que a minha realidade não é mais verdadeira que a sua, e que tanto a minha quanto a sua duram só um momento”. PIRANDELLO, Luigi. 'Um, nennhum e cem mil'.

terça-feira, 22 de março de 2011

Monólogo à três

Escrito para Carlos Machado Junior e cantado pelo diabo albino e o sonho em que está "enredado".

Carlos, eu preciso da sua ajuda. E é justamente sobre isso: Heavy metal, como filosofia, eu digo- se isso for, pra você, uma redundância, eu entendo.
Bom, o que eu não compreendo é como se é capaz de exaltar a dor pela dor, a morte pela morte. Digo, quando penso em "Anjo Negro" e toda a história eu não imagino Nelson Rodrigues escrevendo tudo aquilo para exaltar o que acontece, mas para exaltar a vida por trás disso. Ao admitirmos o racismo em sua peça isso se faz justamente para contrastá-lo com o valor que seria correto, ou seja, a concepção de que todos somos humanos e a melanina assim como a cor do cabelo não determina estratificações. O que quero dizer é que por trás do estilo visceral de como uma letra sua afirma: "a dor sustenta o meu corpo", esse desejo de cantar sua dor no metal não é nada além do que uma tentativa de desforrá-la com pessoas que a entendem. De tentar exprimí-la em solos de guitarra ou por um vocal gutural para, não exautá-la, mas esmiuçá-la de tal forma a se tornar comprensível e/ou, talvez, somente deixá-la ser, deixá-la latejar. Lhe digo ( perdoe a próclise, mas eu odeio o modo como soa a ênclise), sentir a dor, assim como sentir a felicidade, me faz sentir pulsante. Ao experimentar tais sensações sinto uma sede por sentimentos que, eu não sei, talvez exprimam o que "sentir" significa. Agora, nem só dor, nem só morte. Aceito não rotular isso de mal porque também é uma sensação, mas quando isso extrapola essa descoberta individual eu não sei o que dizer.
Você me disse, uma vez, que em shows no underground, você vê muito mais cuidado com o próximo do que nas rodas arrogantes de MPB. Entendo isso na medida em que entendo quando abraço alguém com quem compartilho minhas tristezas, meu sofrimento, mas há como se bastar só sofrendo? Para se explorar "visceralmente"como creio ser proposto, há que se levar em conta as antíteses. É um vício abster-se com a tristeza, por mais que você a prefira. Eu prefiro a alegria, mas não me privo da dor por temê-la. E também não só a aceito, mas a vivo quando vem. É muito simplista restringir um estilo musical a uma de suas vertentes, mas se consigo compreender essa paixão que vocês sentem, talvez seja pensando em compará-la a minha paixão pela clássica. Algo que te preenche e sufoca e enebria, que ressoa em você pelos poros. É como se o heavy metal fosse tão sensível quanto o que Tchakovsky representa. Tão sutil e forte ao mesmo tempo, que estilos tão contrastantes se aproximam justamente pelo que os afasta, a paixão. Esse retombar externo que alcança o "Tuntar" interno. E nem por fazê-lo heavy metal ou música clássica são os melhores estilos, nem por isso MPB, samba ou pop deixam de compor melodias. Todas estão presentes, se manifestando de maneiras diferentes, mas complementares. Até mesmo o funk expressa a cultura de onde nasce e não deixa de ressoar em quem vive essa realidade. Tudo depende de que forma a melodia te toca, te alcança e te faz ser em sua plena extensão.

Digo, heavy metal não ressoa em mim, mas entendo como pode ressoar, como pode apaixonar. Já que, o que é o amar senão dor e alegria juntos?


"To pull the plugs And to make you die To stop your suffering And to make me cry Sorry but I don't mind Sorry but I can see Now my life is going And I'm everything I'm seeing a child I'm smelling a rose My eyes have been closed Now, here is my time "A tribute to the plague

"quando o coração
Leva o ritmo no peito
Meu verso leva jeito
Pra fechar de primeira
Se você duvida
Da cadência dessa paixão
Sente só o tum tum
Do meu coração
Na escola ele era
Batucada na carteira
Depois do teu beijo,
Bateria da mangueira
Amar de todas as formas
Ou de qualquer maneira
Meu coração é essa máquina
De samba portátil " Samba Portátil de Carlos Machado

Oblivon- Astor Piazzolla

http://www.youtube.com/watch?v=LlRximI_BZU&feature=related

sábado, 19 de março de 2011

Anil agripnico

Uma vez escrevi que se fazia um texto seria para dar voz ao que sentia. Desforrar em palavras todo um turbilhão de ideias e que para ser justa com esse propósito não me ateria à gramática. Simplesmente deixaria fluir da maneira que viesse. Seja z, ç ou s, x ou ch, próclise ou ênclise, nada me pararia. Nada impediria o ritmo frenético das palavras, já que não se impede ou controla o ritmo cardíaco, o pulso de seguidas sístoles e diástoles. Não que menospreze a ordem e as regras de nossa língua, faço isso por entender, a minha maneira, que a língua me representa e se escreverei para mostrar o que sou, isso só se daria de maneira justa apresentando os meus rompantes. Nego-me a consruir diques, nego-me a conter a matilha, nego-me a frear grandes dilúvios. Afinal foram grandes explosões que moveram a história. Desde o Big Bang até a loucura de um Abapuru e o movimento antropofágico.Deixo ao encargo dos cientistas e dos críticos moldar depois uma teoria e analisar os fatos, mas por enquanto fico com a metamorfose ambulante, explodindo, sendo a fagulha, a trasformação. O diamante bruto ou o rascunho inacabado. O início, a insônia dos poetas. O anil agripnico.

Neologismos fazem parte do contexto-para nem todos os fluidos corporais há um nome para se por no papel- e se entitulo o texto e a mim mesma com duas palavras aparentemente desconexas, é porque encaixo aí todo o resumo do conceito deste blog para mim. Como se ter insônia com um céu anil? Como um diagnóstico clínico (agripnico) ousa definir o anil proveniente da decomposição da luz em si? Em tudo, sempre encontramos milhares de paradoxos e milhares de portas para viajar pelo infinito e pelo limbo imaginário. Quero dar asas a essa viagem, mesmo que nem eu mesma me entenda, de tal forma a dar sentido a loucura ou a ser dominada por ela, encontrando-me nas entrelinhas. E todas essas dúvidas, insanidades e viagens, essas sim, me dão e são a minha Insônia. Sempre presente mesmo em dias de céu azul, compondo e sendo ironicamente o meu nome ao contrário e o inverso de tudo que já tentei formular.

“Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando" Clarice Lispector-ela sempre tem as palavras certas, mesmo querendo não tê-las.


"Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou" Raul Seixas