Sentir insônia poética é tentar dormir e acordar nas rimas. É no silêncio da madrugada que os barulhos no pensamento acordam os poemas.

sábado, 26 de março de 2011

Organização caótica

Lírico, épico e dramático. Estes três gêneros foram apresentados a mim como os "Três fundamentais", o que significa, por vez, que estão sempre presentes, seja juntos ou separados, em qualquer obra literária. Não pude deixar de questionar tal afirmação. Em qual dos três encaixar-se-ia, pois, a escrita dadaísta? Ou os poemas surrealistas? E os cubistas?
Obviamente, não podemos enquadrá-los no gênero épico- é só compará-los a Homero; o leitor há de convir, também, que pouco possuem eles de dramaticidade- Shakeaspeare com certeza concordaria; outrossim, estão longe de representar o sentimentalismo do gênero lírico- semelhança alguma aos escritos de Fernando Pessoa. Poder-se-ia procurar uma segunda alternativa: e se fossem eles a união dos três? Definitivemente nada têm eles de comum com as baladas de Manuel Bandeira. O que seriam então?
Alguns radicalistas diriam que tais vertentes não podem ser chamadas de literatura, justamente por essa dificuldade aparente de classificá-las. Mas isto seria um tanto injusto com os vanguardistas Hugo Ball, ou Antonio Maria, ou Guillaume Apollinaire, por exemplo. Certamente, cada um destes se reviraria em seu túmulo ao ouvir tal barbárie. Afinal, é muito mais fácil excluir algo de um sistema do que tentar criar uma forma de englobá-lo nele.
Hoje, serei um pouco audaciosa e tentarei formular um espaço alternativo para estes escritos dentro da literatura. Se não podemos fugir dos "gêneros fundamentais", vamos tentar mudar a forma de encará-los. E se, ao invés de uma união harmônica entre os gêneros, o dadaísmo- aqui, apenas como representante dos demais já citados- fosse o choque do épico com o dramático, ou do lírico com o épico, ou dos três ao mesmo tempo? É como se, ao uni-los dessa maneira, fôssemos capazes de introduzí-los na literatura e organizá-los dentro do caos que representam. Eles seriam, pois, nada mais que a representação caótica do padrão de gêneros literários. E isso não significa que, apenas por serem diferentes e, muitas vezes, incompreendidos, devem ser julgados como arte baixa, como poderia classificar Aristóteles. São apenas a expressão real de sentimentos cansados do tradicionalismo, impositor de regras e normas que nem sempre são convenientes.

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