Sentir insônia poética é tentar dormir e acordar nas rimas. É no silêncio da madrugada que os barulhos no pensamento acordam os poemas.

sábado, 19 de março de 2011

Anil agripnico

Uma vez escrevi que se fazia um texto seria para dar voz ao que sentia. Desforrar em palavras todo um turbilhão de ideias e que para ser justa com esse propósito não me ateria à gramática. Simplesmente deixaria fluir da maneira que viesse. Seja z, ç ou s, x ou ch, próclise ou ênclise, nada me pararia. Nada impediria o ritmo frenético das palavras, já que não se impede ou controla o ritmo cardíaco, o pulso de seguidas sístoles e diástoles. Não que menospreze a ordem e as regras de nossa língua, faço isso por entender, a minha maneira, que a língua me representa e se escreverei para mostrar o que sou, isso só se daria de maneira justa apresentando os meus rompantes. Nego-me a consruir diques, nego-me a conter a matilha, nego-me a frear grandes dilúvios. Afinal foram grandes explosões que moveram a história. Desde o Big Bang até a loucura de um Abapuru e o movimento antropofágico.Deixo ao encargo dos cientistas e dos críticos moldar depois uma teoria e analisar os fatos, mas por enquanto fico com a metamorfose ambulante, explodindo, sendo a fagulha, a trasformação. O diamante bruto ou o rascunho inacabado. O início, a insônia dos poetas. O anil agripnico.

Neologismos fazem parte do contexto-para nem todos os fluidos corporais há um nome para se por no papel- e se entitulo o texto e a mim mesma com duas palavras aparentemente desconexas, é porque encaixo aí todo o resumo do conceito deste blog para mim. Como se ter insônia com um céu anil? Como um diagnóstico clínico (agripnico) ousa definir o anil proveniente da decomposição da luz em si? Em tudo, sempre encontramos milhares de paradoxos e milhares de portas para viajar pelo infinito e pelo limbo imaginário. Quero dar asas a essa viagem, mesmo que nem eu mesma me entenda, de tal forma a dar sentido a loucura ou a ser dominada por ela, encontrando-me nas entrelinhas. E todas essas dúvidas, insanidades e viagens, essas sim, me dão e são a minha Insônia. Sempre presente mesmo em dias de céu azul, compondo e sendo ironicamente o meu nome ao contrário e o inverso de tudo que já tentei formular.

“Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando" Clarice Lispector-ela sempre tem as palavras certas, mesmo querendo não tê-las.


"Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou" Raul Seixas

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