Vida. O que carrega, pois, esta palavra, tão indefinível e tão distante, mas ao mesmo tempo, tão próxima, tão real, tão VIVA? O que é viver? Reunir uma inconstância de sentimentos, momentos e divagações que pouco fazem sentido?
É engraçado que só venhamos a pensar na importância da vida, geralmente, quando ela nos “prega uma peça”. Sinto-me, agora, como se ela fosse aquela figura de capuz preto carregando um machado, prontinha, prontinha para tirar, lentamente, a minha vontade dela mesma. E morte e vida se confundem, a partir do momento em que meu corpo e, sobretudo, coração, já não mais reconhece o que os difere. É como se apenas existisse, nesse momento, vida na morte e morte na vida.
Pode parecer dramático demais, meio baynorismo demais para o séc XXI, mas não se pararmos pra pensar que tudo o que se passa nesse mundo, o qual - ignoro até que ponto - chamamos de real, só existe em oposição a algo. O que seria da tristeza, sem a alegria? Do ódio, sem o amor? Da fome, sem a fartura? Da surpresa, sem a frustração, por exemplo? Nada. Absolutamente, nada. E o oposto, também se faz verdadeiro. É tudo questão de perspectiva e nada além disso.
O conceito de perspectiva é originário, como se sabe, da pintura, a qual pressupõe a exposição do ângulo de visão do artista. Ela torna-se, assim, a arte de representar objetos sobre determinado plano, tais como eles apresentam-se à vista. Já na literatura, ela assume um papel ainda maior, deixando de ser apenas o lugar de onde se vê, para representar, também, a maneira como se vê. Partindo deste conceito, é através dela que interpretamos qualquer existência, da mesma forma como um narrador interpreta sua história antes de conta-la. Nós interpretamos a vida, antes mesmo de conhecê-la, antes de sabermos defini-la.
Assim, a verdade torna-se amplamente relativa, tal como a vida e a forma de encará-la. Se encararmos, como foi dito acima, que sentimentos só existem em contraposição a outro, talvez paremos de enxergar a tristeza, o ódio, a raiva, a angústia e, até mesmo, a morte, como coisas ruins. São apenas estados de espírito, passageiros, mas que são capazes de nos fazer, de fato, dar valor aquilo que realmente nos faz bem, como viver.
“É preciso afastar-se para uma quietude qualquer, e talvez os mortos sejam esses que se retiram para refletir sobre a vida”, (Rilke, Rainer Maria. A canção da justiça)
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