Sentir insônia poética é tentar dormir e acordar nas rimas. É no silêncio da madrugada que os barulhos no pensamento acordam os poemas.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Michê de mim

Tentada a falar
Tentada a escrever
Tentada talvez a amar
Tentada a ser mim

Sigo michê
Sigo clichê
Falo de amor
Como se vendesse meu corpo
A você
A mim

terça-feira, 22 de março de 2011

Monólogo à três

Escrito para Carlos Machado Junior e cantado pelo diabo albino e o sonho em que está "enredado".

Carlos, eu preciso da sua ajuda. E é justamente sobre isso: Heavy metal, como filosofia, eu digo- se isso for, pra você, uma redundância, eu entendo.
Bom, o que eu não compreendo é como se é capaz de exaltar a dor pela dor, a morte pela morte. Digo, quando penso em "Anjo Negro" e toda a história eu não imagino Nelson Rodrigues escrevendo tudo aquilo para exaltar o que acontece, mas para exaltar a vida por trás disso. Ao admitirmos o racismo em sua peça isso se faz justamente para contrastá-lo com o valor que seria correto, ou seja, a concepção de que todos somos humanos e a melanina assim como a cor do cabelo não determina estratificações. O que quero dizer é que por trás do estilo visceral de como uma letra sua afirma: "a dor sustenta o meu corpo", esse desejo de cantar sua dor no metal não é nada além do que uma tentativa de desforrá-la com pessoas que a entendem. De tentar exprimí-la em solos de guitarra ou por um vocal gutural para, não exautá-la, mas esmiuçá-la de tal forma a se tornar comprensível e/ou, talvez, somente deixá-la ser, deixá-la latejar. Lhe digo ( perdoe a próclise, mas eu odeio o modo como soa a ênclise), sentir a dor, assim como sentir a felicidade, me faz sentir pulsante. Ao experimentar tais sensações sinto uma sede por sentimentos que, eu não sei, talvez exprimam o que "sentir" significa. Agora, nem só dor, nem só morte. Aceito não rotular isso de mal porque também é uma sensação, mas quando isso extrapola essa descoberta individual eu não sei o que dizer.
Você me disse, uma vez, que em shows no underground, você vê muito mais cuidado com o próximo do que nas rodas arrogantes de MPB. Entendo isso na medida em que entendo quando abraço alguém com quem compartilho minhas tristezas, meu sofrimento, mas há como se bastar só sofrendo? Para se explorar "visceralmente"como creio ser proposto, há que se levar em conta as antíteses. É um vício abster-se com a tristeza, por mais que você a prefira. Eu prefiro a alegria, mas não me privo da dor por temê-la. E também não só a aceito, mas a vivo quando vem. É muito simplista restringir um estilo musical a uma de suas vertentes, mas se consigo compreender essa paixão que vocês sentem, talvez seja pensando em compará-la a minha paixão pela clássica. Algo que te preenche e sufoca e enebria, que ressoa em você pelos poros. É como se o heavy metal fosse tão sensível quanto o que Tchakovsky representa. Tão sutil e forte ao mesmo tempo, que estilos tão contrastantes se aproximam justamente pelo que os afasta, a paixão. Esse retombar externo que alcança o "Tuntar" interno. E nem por fazê-lo heavy metal ou música clássica são os melhores estilos, nem por isso MPB, samba ou pop deixam de compor melodias. Todas estão presentes, se manifestando de maneiras diferentes, mas complementares. Até mesmo o funk expressa a cultura de onde nasce e não deixa de ressoar em quem vive essa realidade. Tudo depende de que forma a melodia te toca, te alcança e te faz ser em sua plena extensão.

Digo, heavy metal não ressoa em mim, mas entendo como pode ressoar, como pode apaixonar. Já que, o que é o amar senão dor e alegria juntos?


"To pull the plugs And to make you die To stop your suffering And to make me cry Sorry but I don't mind Sorry but I can see Now my life is going And I'm everything I'm seeing a child I'm smelling a rose My eyes have been closed Now, here is my time "A tribute to the plague

"quando o coração
Leva o ritmo no peito
Meu verso leva jeito
Pra fechar de primeira
Se você duvida
Da cadência dessa paixão
Sente só o tum tum
Do meu coração
Na escola ele era
Batucada na carteira
Depois do teu beijo,
Bateria da mangueira
Amar de todas as formas
Ou de qualquer maneira
Meu coração é essa máquina
De samba portátil " Samba Portátil de Carlos Machado

Oblivon- Astor Piazzolla

http://www.youtube.com/watch?v=LlRximI_BZU&feature=related

sábado, 19 de março de 2011

Anil agripnico

Uma vez escrevi que se fazia um texto seria para dar voz ao que sentia. Desforrar em palavras todo um turbilhão de ideias e que para ser justa com esse propósito não me ateria à gramática. Simplesmente deixaria fluir da maneira que viesse. Seja z, ç ou s, x ou ch, próclise ou ênclise, nada me pararia. Nada impediria o ritmo frenético das palavras, já que não se impede ou controla o ritmo cardíaco, o pulso de seguidas sístoles e diástoles. Não que menospreze a ordem e as regras de nossa língua, faço isso por entender, a minha maneira, que a língua me representa e se escreverei para mostrar o que sou, isso só se daria de maneira justa apresentando os meus rompantes. Nego-me a consruir diques, nego-me a conter a matilha, nego-me a frear grandes dilúvios. Afinal foram grandes explosões que moveram a história. Desde o Big Bang até a loucura de um Abapuru e o movimento antropofágico.Deixo ao encargo dos cientistas e dos críticos moldar depois uma teoria e analisar os fatos, mas por enquanto fico com a metamorfose ambulante, explodindo, sendo a fagulha, a trasformação. O diamante bruto ou o rascunho inacabado. O início, a insônia dos poetas. O anil agripnico.

Neologismos fazem parte do contexto-para nem todos os fluidos corporais há um nome para se por no papel- e se entitulo o texto e a mim mesma com duas palavras aparentemente desconexas, é porque encaixo aí todo o resumo do conceito deste blog para mim. Como se ter insônia com um céu anil? Como um diagnóstico clínico (agripnico) ousa definir o anil proveniente da decomposição da luz em si? Em tudo, sempre encontramos milhares de paradoxos e milhares de portas para viajar pelo infinito e pelo limbo imaginário. Quero dar asas a essa viagem, mesmo que nem eu mesma me entenda, de tal forma a dar sentido a loucura ou a ser dominada por ela, encontrando-me nas entrelinhas. E todas essas dúvidas, insanidades e viagens, essas sim, me dão e são a minha Insônia. Sempre presente mesmo em dias de céu azul, compondo e sendo ironicamente o meu nome ao contrário e o inverso de tudo que já tentei formular.

“Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando" Clarice Lispector-ela sempre tem as palavras certas, mesmo querendo não tê-las.


"Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou" Raul Seixas